“Sons da Terra: Começo, Meio e Começo.”
Em celebração aos 36 anos de carreira do foto documentarista Ogã Luiz Alves, sob curadoria de Luazi Luango.
A Terra (Mini Bio do Ogã Luiz)
Sons da Terra: As Raízes do Samba no Chão dos Terreiros
A exposição fotográfica “Sons da Terra: As raízes do Samba no Chão dos Terreiros” apresenta 50 fotografias do renomado fotodocumentarista Luiz Alves, um artista com mais de 36 anos de carreira dedicados ao fotojornalismo da cultura de terreiro do Distrito Federal e dos movimentos sociais antirracistas. Seu trabalho, exemplificado pela série “mo dudú” (sabedoria negra em iorubá), revela o cotidiano, os rituais e as celebrações dos terreiros de candomblé em Brasília, com a convicção de que a fotografia pode ser uma arma contra a intolerância racial, oferecendo um portal de conhecimento sobre as religiões de matriz africana e brasileira, muitas vezes incompreendidas e criticadas.
A exposição convida a um diálogo profundo sobre a herança africana no Brasil, tecendo pontes entre a cultura de terreiro, o samba e a resistência ancestral, sob a luz de pensadores cruciais para a compreensão da negritude e de suas manifestações culturais.
Nêgo Bispo e a Cultura de Quilombo: Confluências de Resistência
As lentes de Luiz Alves capturam a essência da “confluência” (Nêgo Bispo), um conceito que ressoa com a interdependência dos indivíduos e da natureza, típico das comunidades tradicionais. Nêgo Bispo, um intelectual e ativista quilombola, ensina que a oralidade é a “base pulsante” da transmissão de saberes nos quilombos, um processo contínuo de “começo, meio e começo” entre gerações. Ao evidenciar a vida nos terreiros, as fotografias de Alves dialogam com essa filosofia da confluência, que busca alianças e reconhecimento entre os povos afro-pindorâmicos (africanos e indígenas) e outras comunidades marginalizadas pelo sistema capitalista, unindo quilombos, terreiros e aldeias na mesma força de resistência.
Muniz Sodré: O Samba como Expressão do Corpo Negro e do Terreiro
A mostra explora as raízes do samba no “chão dos terreiros”, uma conexão profundamente analisada por Muniz Sodré em sua obra “Samba, o dono do corpo”. Sodré argumenta que o samba é uma “demonstração inequívoca de resistência” do corpo negro, que, apesar da violência e da repressão da escravatura, encontrou na síncopa rítmica e na dança uma forma de reafirmar a continuidade do universo cultural africano no Brasil. As fotografias de Luiz Alves trazem à tona a vitalidade dos terreiros, espaços onde, como pontua Sodré, as “tias baianas” (zeladoras de orixás) aglutinavam os primeiros grupos de samba, tornando as escolas de samba, hoje, verdadeiros “terreiros na avenida”, carregando a filosofia e o axé ancestral.
Lélia Gonzales: Pan-Africanismo e o “Pretuguês” como Identidade e Resistência
No percurso da exposição, a dimensão pan-africanista se manifesta na pluralidade de expressões e na resiliência da cultura afro-brasileira, ecoando o pensamento de Lélia Gonzales. Lélia cunhou o termo “pretuguês” para sublinhar a influência fundamental das línguas africanas (como quimbundo e ambundo) no português falado no Brasil, reconhecendo-o como uma forma de resistência cultural e uma expressão autêntica da identidade brasileira. As imagens de Alves, ao registrar a riqueza da cultura de terreiro, celebram essa “fala cotidiana das pessoas simples”, que é intrinsecamente “pretuguesa” em seu acento, entonação e ritmo, consolidando a cultura de matriz africana como um pilar da identidade nacional e um contínuo ato de afirmação e existência.
“Sons da Terra” é, portanto, mais do que uma exposição fotográfica; é um convite à reflexão sobre a profunda interconexão entre as manifestações culturais de matriz africana, a luta antirracista e a construção de uma identidade brasileira multifacetada e resiliente.
Fontes de Informação:
- Fotógrafo Luiz Alves:
- Nêgo Bispo:
- Muniz Sodré:
- Lélia Gonzales: